Ensaio sobre o Anarquismo (parte 2)
Breve história do Anarquismo
O início da História do Anarquismo não coincide com o surgimento do termo Anarquismo, sendo muito anterior a ela, e implica uma série de reflexões sobre entendimentos possíveis das idéias de indivíduo, sociedade e liberdade, realizadas em sociedades distintas, em diferentes momentos históricos.
Precursores do anarquismo
Sociedades sem governo e a pré-história
De acordo com Harold Barclay antes de o Anarquismo ter surgido como uma perspectiva distinta, seres humanos viveram milhares de anos em sociedades sem governo.
Anarcoprimitivistas também acreditam que, por um longo período antes da história escrita, as sociedades humanas foram organizadas por princípios anárquicos. No entanto, existe um debate sobre as evidências antropológicas nas quais esta afirmação se fundamenta.
Foi somente depois do surgimento das sociedades hierárquicas que as idéias anarquistas foram formuladas como uma resposta crítica e rejeição a toda forma de instituição política coercitiva baseada em relações sociais hierárquicas.
Muitos anarquistas não primitivistas consideram equivocadas as especulações dos primitivistas, uma vez que a limitação dos registros e as analogias com as sociedades autóctones contemporâneas possuem claras limitações de contexto. Outros consideram ainda que a crença primitivista de uma pré-história libertária tem seu fundamento em um arcabouço mitológico ocidental que remete a era de ouro da antiguidade grega em que “homens e animais viviam em harmonia”, e ao jardim do Éden cristão “antes do pecado original”; mas também em mitos modernos decorrentes de leituras enviesadas da própria filosofia ocidental como o “bom selvagem” de Jean Jacques Rousseau.
Filosofia ácrata na Grécia da Antiguidade
A utilização das palavras “anarchia” e “anarchos”, ambas significando “sem governantes”, podem ser traçadas até as Ilíadas de Homero e as Histórias de Herodotus.
O primeiro uso político conhecido da palavra Anarquia aparece na peça Sete Contra Tebas de Aeschylus, datada de 467 a.C.. Nela, Antigona se recusa abertamente a aceitar o decreto dos governantes a abandonar o corpo de seu irmão Polyneices não sepultado. Como punição por sua participação no ataque a Tebas, diante do decreto ela diz: “Mesmo se ninguém quiser participar comigo, sozinha correrei o risco em sepultar meu próprio irmão. Terei eu que agir em oposição desafiadora aos governantes da cidade”.
Aristipo de Cirene, um dos maiores discípulos de Sócrates, grande estudioso das questões éticas, certa vez afirmou que os sábios não deveriam abrir mão de suas liberdades em prol do estado. No entanto, nenhum de seus escritos sobreviveu ao tempo e tudo que se conhece sobre suas reflexões está baseado nas obras de seus comentadores.
A Grécia Antiga também viu florescer a primeira instância do Anarquismo enquanto ideal filosófico. Os cínicos Diógenes de Sínope e Crates de Tebas advogaram por formas anárquicas de sociedade, mas pouco resta de seus escritos.
O filósofo Zenão de Cítio, fundador do Estoicismo, muito influenciado pelos cínicos, descreveu sua visão de uma sociedade horizontal em torno de 300 a.C.. A República de Zenão se baseava em uma forma de Anarquismo onde não existia necessidade de estruturas estatais.
Zenão era, de acordo com Kropotkin, “O maior expoente da filosofia anarquista na Grécia Antiga”. Como resumido por Kropotkin, Zenão “repudiava a onipotência do estado, sua intervenção e regimentação, e proclamava a soberania da lei moral do indivíduo”.
Na filosofia grega, a visão de Zenão de comunidade livre sem governo é oposta à utopia pró-estatal da República de Platão. Em oposição a Platão, Zenão argumentava que a razão poderia substituir a autoridade na administração dos assuntos humanos. Sua defesa da anarquia se baseava na premissa de que o instinto de auto-preservação necessariamente levaria os humanos ao egoísmo, no entanto, a natureza teria suprido o homem com um corretivo para esse aspecto, outro instinto de sociabilidade.
Como muitos anarquistas modernos, ele acreditava que se fosse permitido aos povos que seguissem seus instintos, não precisariam de leis, côrtes ou polícia, nem de templos ou espaços de adoração pública, não utilizariam dinheiro e formas de economia do dom tomariam seu lugar nas trocas. As reflexões de Zenão só chegaram até a contemporaneidade na forma de trechos fragmentados.
Em Atenas, o ano 404 a.C. foi comumente conhecido como “o ano da anarquia”. De acordo com o historiado Xenofonte, trata-se de fato de um período em que Atenas foi governada pela oligarquia dos “Trinta” – instalada pelos espartanos após sua vitória na segunda guerra do Peloponeso – e, devido ao fato de que existia um Arconte no governo (nomeado pelos oligarcas, na pessoa de Pythodorus) os atenienses se recusaram a aplicar, na ocasião, seu costume de chamar o ano pelo nome do arconte, preferindo chamá-lo de ‘ano da anarquia’”.
Os filósofos gregos Platão e Aristóteles utilizaram o termo anarquia em seu sentido negativo, em associação com a idéia de democracia a qual acreditavam ser inerentemente vulnerável e passível de deteriorar em tirania.
Platão acreditava que a corrupção criada pela democracia propiciava a hierarquia “natural” entre classes sociais, gêneros e grupos de idade, para sua ampliação: “anarquia encontra um caminho nas casas privadas, e termina por chegar até os animais e infectá-los” (‘República’, livro 8).
Aristóteles diz em seu livro 6 das ‘Políticas’, quando discute revoluções, que as classes superiores podem ser motivadas a levar a cabo um grupo em suas contendas para prevenir a “desordem e anarquia nos assuntos do estado. Este filósofo também associou a anarquia com a democracia quando afirmou existirem traços “democráticos” nas tiranias e denominou a anarquia uma “licença possível entre escravos , bem como entre mulheres e crianças”. “Uma constituição deste tipo”, concluiu, “terá um amplo número de apoiadores já que viver desordenadamente é mais prazeroso às massas que levar uma vida sóbria”.
Filosofia ácrata na China da Antiguidade
Na China em 600 a.C., o pensador taoísta Lao Zi foi o principal responsável pelo desenvolvimento do princípio de “não-comando” no Tao Te Ching – importante texto do taoísmo filosófico.
Com base neste princípio muitos taoístas passaram a viver nos conformes com um modo de vida muito semelhante àquele chamado de “anarquista” na modernidade.
Em 300 AC, também o filósofo Bao Jingyan advogaria abertamente por uma sociedade que não estivesse baseada na existência de senhores ou servos.
Movimentos e idéias ácratas na Idade Média
Existiram variedades de movimentos anárquicos religiosos na Europa durante a Idade Média, incluindo a Irmandade do Espírito Livre, os Klompdraggers, os Hussitas, Adamitas e os primeiros Anabatistas.
Sobre estes últimos Bertrand Russell afirmaria em sua História da Filosofia Ocidental que os Anabatistas “repudiaram todas as leis, desde que consideravam que o bom homem seria guiado a todo instante pelo Espírito Santo… por essa premissa eles chegaram ao comunismo…”.
Em Gargantua e Pantagruel (1532-52), François Rabelais escreveu no Abby de Thelema (palavra grega que significa “vontade” ou “desejo”), uma utopia imaginária onde seu princípio era “Faça Como Queira”, lugar no qual não havia governantes ou governados. Graças a esta contribuição literária, bem como aos seus questionamentos críticos de fundo ético através da sátira aos governantes de seu tempo, Rabelais é considerado por alguns anarquistas, entre eles Voltairine de Cleyre, um importante precursor do pensamento ácrata no final da Idade Média.
Quase na mesma época, um estudante francês de Direito, Étienne de La Boétie, escreveu seu Discurso sobre a Servidão Voluntária, no qual ele argumentava que a tirania é resultado da submissão voluntária, e deveria ser abolida pelas pessoas através da recusa a obedecer às autoridades que acreditavam estar acima delas.
Anarquismo e a modernidade
Para Leo Tolstoi, o Anarquismo Cristão tem como um dos seus mais importantes expoentes em Gerrard Winstanley, que fazia parte dos movimento dos Diggers na Inglaterra durante a Guerra Civil Inglesa.
Em seus escritos, Winstanley afirmava que as “bênçãos da terra” deveriam “ser comuns a todos… e nenhum senhor sobre os demais.”
Em um de seus panfletos em meio ao século XVII, Winstanley defendia a criação de pequenas comunas agrárias de propriedade coletiva e economia socialmente organizada, que entrariam para a história como os agrarianos.
No entanto, na era moderna o primeiro a empregar o termo “Anarquia” com um sentido outro que não o caos foi Louis-Armand, Barão de Lahontan, em sua obra Novas viagens da América Setentrional (1703) onde descreveu os povos indígenas habitantes originais das Américas como sociedades sem estado, leis, prisões, padres ou propriedade privada, “seres em anarquia”.
Em Uma defesa da Sociedade Natural (1756), Edmund Burke defendeu a abolição do governo. Posteriormente, afirmaria que a obra era para ser um trabalho satírico. Três décadas depois William Godwin comentaria os escritos de Burke e seu tratado afirmando que, neste, “os males das instituições políticas existentes foram revelados com uma força de razão e capacidade de eloquência incomparáveis, enquanto a intenção do autor era mostrar que esses males deveriam ser considerados trivialidades.”
Existiram diversas correntes ácratas e libertárias durante a Revolução Francesa, com alguns revolucionários empregando o termo “anarchiste” em um prisma positivo como no início de setembro de 1793.
Os Enragés se opuseram a um governo revolucionário como uma contradição em termos. Denunciando a ditadura Jacobina, Jean Varlet escreveu em 1794 que “governo e revolução eram incompatíveis, a menos que o povo deseje estabelecer autoridades constituídas em permanente insurreição contra elas próprias”.
Em seu Manifesto dos Iguais, Sylvain Maréchal defendeu o desaparecimento, de uma vez por todas, da “distinção revoltante entre ricos e pobres, grandes e pequenos, mestres e servos, governantes e governados.”
Em 1825 nos Estados Unidos, Josiah Warren participou da comunidade experimental pensada por Robert Owen chamada New Harmony, que desapareceu alguns poucos anos depois devido a conflitos internos. Em 1827, com New Harmony desintegrada, ele retornou a Cincinnati. Como Kenneth Rexroth escreveu, “quase todos os críticos de New Harmony disseram que ela havia falhado pela falta de uma liderança forte, disciplina e comprometimento. Warren chegou à conclusão exatamente oposta.”
Warren condenou a falta de soberania individual da comunidade como o motivo principal do fracasso da experiência. Ele se esforçaria ainda para organizar outras comunidades anarquistas como a Utopia e a Modern Times.
Reunindo colonos vindos de França no Rio de Janeiro no ano anterior, inspirado nas teorias de Fourier, em 1842 o Dr. Benoit Jules Mure se dirigiu às margens da Baía de Babitonga, perto da cidade histórica de São Francisco do Sul com o objetivo de iniciar aquela que ficaria conhecida como a primeira experiência libertária do hemisfério sul, o Falanstério do Saí ou Colônia Industrial do Saí.
A experiência duraria poucos anos devido ao despreparo de seus componentes e incapacidade de coesão que resultou em um grupo à frente do qual estava Michel Derrion. Este constituiria outra colônia a algumas léguas do Saí, num lugar chamado Palmital: a Colônia do Palmital. No entanto, ambas experiências não prevaleceriam.
Mais de quarenta anos depois, em 1889 um grupo articulado por esforço do agrônomo-veterinário Giovanni Rossi se engajaria em uma nova experiência de comunalismo experimental. No município de Palmeira (PR) eles dariam forma a uma comunidade baseada nos princípios libertários do cooperativismo, do anticlericalismo e na negação de outras instituições tradicionais como a hierarquia, o matrimônio e a família nuclear: esta fora denominada Colônia Cecília em referência a um dos romances previamente escritos por Rossi.
Apesar desta experiência também ter sido de curta duração, seu impacto no imaginário foi tremendo tanto no Brasil como na Itália. Canções e livros foram escritos inspirados nesta experiência que seria rememorada por mais de cem anos entre os anarquistas.
Por todo o século XX, os anarquistas atuaram politicamente junto aos movimentos operário, camponês e feminista. Muitos libertários também dedicaram suas vidas à luta contra o autoritarismo, o racismo e o fascismo. A influência destas lutas sobre algumas vertentes anarquistas é notável.
Os anarquistas assumiram importantes papéis em diversas revoltas e revoluções no final do século XIX e início do século XX, como o levante do exército negro na Ucrânia, também conhecido como movimento makhnovista contra as forças sovietes que chegaram ao poder com a Revolução Russa em 1917.
No Brasil e na América do Sul junto com as levas de imigrantes vindos da Europa desde a segunda metade do século XIX, o Anarquismo se fez conhecer, inicialmente através de diversas publicações nas principais cidades. Logo floresceram centenas de sindicatos anarquistas, centros culturais e escolas libertárias, a maioria delas de orientação anarcossindicalista. Pelo menos duas greves gerais ocorreram na década de 1910 e esta mesma década terminaria com uma insurreição anarquista no ano de 1919 paralisando a capital do país.
Neste contexto, no Brasil, destacam-se as atuações de diversos ativistas entre eles Edgard Leuenroth, Djalma Fettermann, Domingos Passos, José Oiticica, Maria Lacerda de Moura, Neno Vasco Oreste Ristori, Gigi Damiani, Zenon de Almeida, Fábio Luz, Florentino de Carvalho, Avelino Fóscolo, entre outros.
Nos Estados Unidos, muitos dos imigrantes vindos da Europa no início deste século também eram anarquistas. Grupos de libertários italianos se organizariam em diversas atividades, algumas delas de cunho ilegalista na luta por melhores condições de trabalho e contra a miséria a que estavam submetidos. Notável também foi a atuação dos anarquistas judeus vindos da Rússia e Europa Oriental desde a segunda metade do século XIX. Estes fundaram diversos jornais que circulavam por redes internacionais de informação e solidariedade.
Também, no contexto norteamericano do início do século XIX, foram especialmente marcantes os episódios referentes ao julgamento e condenação de Sacco e Vanzetti que, por todo mundo, mobilizaram milhares de trabalhadores a tomarem as ruas em solidariedade e exigindo justiça. Muitos sindicatos e organizações operárias norteamericanas de orientação anarcossindicalista desempenharam um papel importante na formação do espectro político daquele país. Entre eles destacam-se a atuação histórica dos ativistas da Industrial Workers of the World.
Merecem destaque, no contexto norteamericano, a atuação de Alexander Berkman, Emma Goldman, Johann Most, Kate Austin, Lucy Parsons, Luigi Galleani, Voltairine de Cleyre, Rudolf Rocker entre muitos outros.
Na Europa, no primeiro quarto do século XX, os movimentos anarquistas alcançaram êxitos relativos, ainda que breves, e acabaram por ser violentamente reprimidos. No entanto, nas décadas de 1920 e 1930, o conflito entre o Anarquismo e o estado foi em grande medida eclipsado pelo conflito entre o capitalismo e o comunismo – entre suas vertentes o Liberalismo, o Fascismo, e o Stalinismo – que terminou com a derrota do Fascismo Europeu na Segunda Guerra Mundial.
Durante a Guerra Civil Espanhola – que muitos consideram um prelúdio da Segunda Guerra – um amplo movimento anarquista popular organizado em milícias e organizações operárias se estabeleceu na Catalunha em 1936 e 1937 e coletivizou a terra e a indústria. Com o tempo e o crescimento dos aparatos de controle stalinistas na República, os anarquistas foram primeiro colocados de lado para depois serem esmagados. A ação stalinista beneficiaria a chegada ao poder do regime franquista (de orientação fascista), do qual os stalinistas oficialmente fizeram oposição.
Ao fim da Segunda Grande Guerra, a Europa estava dividida entre a região capitalista sob a influência do liberalismo norteamericano, e a região comunista sob o controle da União Soviética, estabelecendo as bases geográficas para a dicotomia política entre o comunismo e o capitalismo que se espalharia pelo globo na forma de golpes, insurreições, invasões e guerrilhas. No entanto, a influência filosófica do anarquismo permaneceria latente até ressurgir na década de 1960.
Um ressurgimento do interesse popular no Anarquismo se deu durante as décadas de 1960 e 1970. No Reino Unido, ele esteve associado com o movimento Punk – a banda Crass é celebrada por suas ideias pacifistas e anarquistas. Na Dinamarca, a Cidade Livre de Christiania foi fundada no subúrbio de Copenhagen. A crise de emprego e habitação na maior parte do leste europeu leva à formação do movimento de comunas e okupas que permanece vigoroso em diversas partes da Europa, principalmente na Espanha e Alemanha.
Em 1980 novas vertentes do Anarquismo ganham corpo nas reflexões e práticas de grupos libertários que se distanciam do Anarquismo clássico. De um lado, o ecologismo radical, a rejeição da tecnologia moderna e a crítica à civilização tornam-se as bases do Anarcoprimitivismo, defendido nas reflexões de teóricos como John Zerzan e nas práticas de ativistas como Theodore Kaczynski (o Unabomber).
Anarquismo no Brasil
Talvez uma das primeiras experiências anarquistas do mundo, antes mesmo de ter sido criado o termo, tenha ocorrido nas margens da Baía de Babitonga, na cidade histórica de São Francisco do Sul. Em 1842 o Dr. Benoit Jules Mure, inspirado nas teorias de Fourier, instala o Falanstério do Saí ou Colônia Industrial do Saí, reunindo os colonos vindos da França no Rio de Janeiro em 1841. Houve dissidências e um grupo dissidente, à frente do qual estava Michel Derrion, constituiu outra colônia a algumas léguas do Saí, num lugar chamado Palmital: a Colônia do Palmital.
Mure conseguiu apoio do Coronel Oliveira Camacho e do presidente da Província de Santa Catarina, Antero Ferreira de Brito. Este apoio foi-lhe fundamental para posteriormente conseguir a ajuda financeira do governo do Império do Brasil para seu projeto.
O Anarquismo no Brasil ganhou força com a grande imigração de trabalhadores europeus entre fins do século XIX e início do século XX. Em 1889 Giovani Rossi tentou fundar em Palmeira, no interior do Paraná, uma comunidade baseada no trabalho, na vida e na negação do reconhecimento civil e religioso do matrimônio, (o que não significa, necessariamente, “amor livre”), denominada Colônia Cecília. A experiência teve curta duração.
No início do século XX, o Anarquismo e o anarcossindicalismo eram tendências majoritárias entre o operariado, culminando com as grandes greves operárias de 1917, em São Paulo, e 1918-1919, no Rio de Janeiro. Durante o mesmo período, escolas modernas foram abertas em várias cidades brasileiras, muitas delas a partir da iniciativa de agremiações operárias de inclinação anarquista.
Alguns acreditam que a decadência do movimento anarquista se deveu ao fortalecimento das correntes do socialismo autoritário, ou estatal, isto é, marxista-leninista, com a criação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1922, participada inclusive, por ex-integrantes do movimento anarquista que, influenciados pelo sucesso da revolução Russa, decidem fundar um partido segundo os moldes do partido bolchevique russo.
Porém, esta posição, sustentada por muitos historiadores, vem sendo contestada desde a década de 1970 por Edgar Rodrigues (anarquista português naturalizado no Brasil, pesquisador autodidata da história do movimento anarquista no Brasil e em Portugal), e pelos recentes estudos de Alexandre Samis que indicam que a influência anarquista no movimento operário cresceu mais durante este período do que no já fundado (PCB) e só a repressão do governo de Artur Bernardes, viria diminuir a influência das idéias anarquistas no seio do movimento grevista.
Artur Bernardes foi responsável por campos de concentração e centros de tortura, nos quais morreram inúmeros anarquistas, sendo que o pior de tais campos foi o de Clevelândia, localizado no Oiapoque. Edgar Rodrigues apresenta em várias de suas obras as investidas de membros do PCB que, procurando transformar os sindicatos livres em sindicatos partidários e conquistar devotos às idéias leninistas, polemizavam em sindicatos e jornais, chegando a realizar atentados contra anarquistas que se destacavam no movimento operário brasileiro, durante a década de 1920.
Provavelmente devido aos problemas de comunicação resultantes da tecnologia da época, os anarquistas só compreenderam a revolução russa de forma mais clara, a partir das notícias de célebres anarquistas, como a norteamericana Emma Goldman, que denunciara as atrocidades cometidas na Rússia em nome da ditadura do proletariado. Seria a partir deste momento histórico que se definiria a posição tática do anarquismo perante os socialistas autoritários no Brasil, separando a confusão ideológica que reinava em torno da revolução russa, identificada pelos anarquistas inicialmente como uma revolução libertária. Esta ideia seria depois desmistificada pelos anarquistas, que acreditam no socialismo sem ditadura, defendendo a liberdade e a abolição do Estado.
Durante o Regime Militar (1964-1985), as principais expressões anarquistas no Brasil foram o Centro de Estudos Professor José Oiticica, no Rio de Janeiro, o Centro de Cultura Social de São Paulo e o Jornal O Protesto no Rio Grande do Sul. Todos foram fechados no final da década de 1960, mas seus militantes continuaram se encontrando clandestinamente, publicando livros e se correspondendo com anarquistas de outros países.
Na década de 1970 surge na Bahia o jornal O Inimigo do Rei, impulsionando a formação de novos grupos anarquistas, através das editorias autogestionárias, em várias partes do Brasil. No Rio Grande do Sul, nos anos oitenta, cria-se na cidade de Caxias do Sul, o Centro de Estudos em Pesquisa Social – CEPS, voltado para o trabalho social. No ano de 1986, na cidade de Florianópolis, é realizada a Primeira Jornada Libertária com o lançamento das bases para a reorganização da Confederação Operária Brasileira – COB/AIT e a organização dos anarquistas. (continua)
